Transição do F1 para o F2
na compreensão desse “rito” está a chave para muitos confitos adolescentes
A passagem do Fundamental I para o Fundamental II
pode ser vista como muito mais que um marco no percurso acadêmico. Vamos aqui considerá-lo como rito de
passagem importante na evolução do ciclo vital de cada
um. Imagine uma mudança que prevê que o corpo ganhe
entre 20 e 30 centímetros e 30 quilos em curto espaço de
tempo. Consideremos as mudanças físicas que isso traz,
a inundação de hormônios, a grande reestruturação no
cérebro e na mente que atinge o pensamento formal. Isso
dá à pessoa a oportunidade de racionar sobre hipóteses
e tirar conclusões a partir delas. Entretanto, para o
adolescente pode ser mais fácil encontrar soluções para
os problemas da humanidade do que resolver as compli
cações do seu cotidiano escolar.
A organização de espaço e tempo é um processo que
se dá com turbulências, com idas e vindas, muitas vezes
provocando perplexidade e confusão. O adolescente lida
com três questões relativas ao tempo. Em primeiro lugar
está numa fase de despedida da infância, deixando para
trás o corpo e as memórias de criança. Estas perdas
podem trazer medo e ansiedade fazendo-o resistir ao
crescimento. Em segundo lugar há uma demanda externa
de aceleração dizendo-lhe “vamos lá, anota aí, três provas semana que vem, não pode deixar para estudar
depois senão vai acumular, você tem que se organizar”.
Este sempre foi um dos maiores desafos dos adolescentes ao entrar no Fundamental II: organizar-se no tempo
e no espaço – gerenciar sua agenda - realizar de tarefas e
compromissos ao longo do tempo. Para isso é preciso
amadurecimento: saber esperar, abrir mão de desejos
imediatos para fazer o que é prioritário.
Ao mesmo tempo, para complicar este cenário,
vivemos no tempo da virtualidade em que tudo é ao
mesmo-tempo-agora e a característica da era virtual é
que tudo é presente, o mundo está na ponta dos dedos e
o imediatismo prevalece. Paradoxalmente, justamente
no período histórico de maior aceleração do tempo,
adolescentes precisam de um tempo. Tempo para aco
modar todas estas instâncias: o tempo subjetivo, o
tempo da realidade concreta da cultura (representadas
pelas demandas da escola) e tempo da era virtual.
É por isso que acreditamos que a entrada no Fundamental II merece ser vista como uma fase de importante
transição, em que adolescentes precisam de apoio, de um
olhar cuidadoso a respeito dos desafos que enfrentam e
de interlocução para processar e refetir sobre o seu pro
cesso de amadurecimento.
Trabalhando com grupos de adolescentes em parceria
com famílias e escolas, temos visto o quanto vale a pena
apostar em estratégias que os ajudem nesta passagem.
*Pedagoga, psicopedagoga e terapeuta familiar sistêmica.
**Fonoaudióloga, especialista em Psicologia Formativa, terapeuta familiar sistêmica.
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